sábado, 13 de março de 2010

Histórias da Casa Branca: O regresso da diplomacia



Texto publicado na quinta-feira, no site de A BOLA, secção Outros Mundos:

O regresso da diplomacia

Por Germano Almeida


«A frente externa tem ficado um pouco esquecida nas prioridades da Administração Obama. A turbulência que tem dominado as principais batalhas de política interna (Reforma da Saúde e recuperação económica) está a adiar e relegar questões como o processo de paz no Médio Oriente para uma zona de menor atenção mediática.

Mas isso não é necessariamente mau. Depois do excessivo intervencionismo de Bush filho – que depois do 11 de Setembro se deixou seguir pela «doutrina preventiva» dos neocons – Obama prometeu «um novo começo» na forma como a América se relaciona com o resto do Mundo.

Esse gesto, verbalizado no discurso do Cairo, gerou duas reacções opostas: a sua base de apoio viu nele a confirmação do regresso da «América boa», mas a Direita americana sentiu-se ainda mais deslocada do novo Presidente.

John Bolton, embaixador dos EUA nas Nações Unidas no segundo mandato de G.W. Bush, não poupou nas críticas, depois do primeiro discurso de Obama na ONU: «O Presidente tem uma visão ingénua das relações internacionais. Apareceu aqui a perguntar ao resto do Mundo: "E porque é que não podemos ser todos amigos?" Chegar à ONU com palavras meigas para os nossos inimigos é quase como acreditar no Pai Natal».

Nos dias que correm, este tipo de agressividade verbal tem colhido frutos em Washington. Dick Cheney, uma espécie de guru da Direita mais ressentida com a vitória de Obama em 2008, tem-se desdobrado em entrevistas nos canais nacionais a avisar: «A Administração Obama é fraca e põe em risco a segurança da América».

“Back to basics”
A forma como as administrações americanas lidam com a política externa costuma ser crucial para se definir o perfil de cada Presidente.

Bush pai era um «realista». Avançou para o Iraque só depois da anexação do Kuwait, mas na hora de entrar em Bagdad, preferiu mandar as tropas para trás, evitando a deposição de Saddam.

Ironia da História: uma década depois, o seu filho, George W. Bush, ordenou a consumação dessa queda, dando ouvidos aos membros da sua primeira administração que mais se conotavam com essa visão 'neocon': o seu vice-presidente, Dick Cheney, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e Paul Wolfowitz, que era o número dois de Rumfsfeld no Pentágono, até 2005, e foi apontado como sendo o «arquitecto» da «Doutrina Bush», gizada após o 11 de Setembro.

Essa doutrina apontava três vértices de um suposto Eixo do Mal que atemozaria a América: o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte.

Olhada aos dias de hoje, essa visão parece ultrapassada -- mas convém não exagerar na contraposição. O que se passou no Iraque é conhecido. Mas é um facto que o Irão e a Coreia do Norte são problemas que os EUA ainda não resolveram.

Parece inegável que a abordagem do «poder de Washington» às ameaças externas mudou de tom, desde a eleição de Barack Obama. Mas ainda há contornos a revelar na verdadeira face da Presidência Obama para a frente externa.

O novo jogo do Médio Oriente
Na questão israelo-árabe, há mudanças claras na estratégia dos EUA. No consulado de George W. Bush, a posição norte-americana não gerava dúvidas: era claramente pró-israelita.

Não por acaso, Israel era um dos pouquíssimos países no Mundo onde Barack Obama teria perdido a disputa de 2008 para John McCain (de acordo com sondagens feitas dias antes da votação presidencial).

A insistência na two states solution tem marcado uma muito maior neutralidade por parte da Administração Obama. Em recente visita a Jerusalém, Joe Biden deixou mensagem clara: «Os Estados Unidos vão responsabilizar, de forma igual, Israel ou a Palestina se algum dos lados tomar medidas que dificultem os esforços de paz».

Uma frase com este tom é especialmente significativa, se atendermos ao facto de ter sido dita um dia depois de Israel ter anunciado a construção de 1600 novos apartamentos em território que é reclamado pelos dois lados.

Será esta maior neutralidade americana o caminho para se relançar o processo de paz? Só o tempo o dirá.

Por muito que o discurso de Washington mude sobre esta questão, a influência judaica nos centros de decisão norte-americanos é incontornável – basta consultar a lista de membros da Administração Obama, nos mais diversos níveis hierárquicos.

Mestre em tratar as situações difíceis com pinças, Obama terá no relançamento do processo de paz no Médio Oriente uma das prioridades do seu segundo ano.»

2 comentários:

MARIA disse...

Texto acutilante, interessantíssima interpretação própria do momento político de Obama.

Um beijinho amigo.

Germano Almeida disse...

Obrigado, um beijinho.

Volte sempre.